AS REFLEXÕES DO AVÔ SHIBU

– O último Samurai de Portugal –

 

CAP. I 
Lembra-te sempre neto Mikoshi: “Abdica do mundo, mas nunca de ti.
Há valores, que se os deixares voar, voarás juntamente com eles em direcção ao abismo. O primeiro de todos é respeitares quem te trouxe ao mundo, mesmo que eles não o façam em relação a ti. Faz a diferença. Faz-te.

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CAP. II 
Neto Mikoshi…um dia quando praticava Taichi nos arrozais, tive um insight. Uma voz que sussurrava: “Quando começares a trabalhar e a viver para o bem comum e para o próximo, diluindo o ego, o teu rio voltará a fluir de forma serena e abundante. Treina e age até que o teu “Eu” não tenha mais nem menos valor do que a árvore pela qual passas todos os dias. Aí reside a fonte da tua abundância e serenidade.”

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CAP. III 
Não desprezes o “ter” querido neto. Só assim conseguirás dar o real valor ao “Ser” e a “Ser”. “Ter” e “Ser” são duas energias que se complementam, tal como o Yin e o Yang, como o céu e a terra, como a água e o fogo. Deixa as modas e os livros. Acha-te a ti.

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CAP. IV 
Mikoshi, como meu neto é bom que recordes um dos grandes segredos para uma vida plena e bem vivida: desestrutura-te quando te julgares muito bem estruturado. Juntando novamente as pequenas peças do puzzle, conseguirás adquirir uma real percepção de quem és e que peças poderás e deverás voltar a unir.

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CAP. V 
Sabes querido neto…estava eu no inicio do meu percurso como potenciador de cura, quando a tua avó sabiamente me disse no arrozal: – “Juízo…antes de quereres chegar a muita gente, opta por chegares primeiro a ti.” – Foram estas palavras que me deram e salvaram a vida.

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CAP. VI 
“Porque é que as pessoas sofrem tanto avô?
– Porque se esqueceram de ser felizes Mikoshi.

“E o que é necessário para ser feliz?”
– Procurares o que é simples em tudo o que és e fazes, especialmente o que julgas ser insignificante e perca de tempo.

“O que é isso da simplicidade?”
– É o retorno a ti. Sem tiques egocêntricos, manias e modas.

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CAP. VII 

Mikoshi, ser prático é também ter as prioridades bem definidas na tua vida.
Qual a base que sustenta as tuas decisões, meu neto?

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CAP. VIII 

Mikoshi, querido neto…ser avô foi uma bênção para mim e para a tua avó. Foi curiosamente nesse mesmo dia, que nos antigos textos budistas deixados pelo teu trisavô li:
“Encontra um propósito maior que ti próprio e dedica-lhe a tua vida”.
Essa frase manteve-se no meu coração até hoje…e sim, encontrei o meu propósito maior:
EU.

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CAP. IX 

Não tentes…
Faz.

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CAP. X 

“Avô… porque é que as pessoas se preocupam tanto com as moedas de ouro?”

– Porque não se ocupam da sua vida, Mikoshi.”

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CAP. XI 

“Parece tudo tão difícil avô… tantas escolhas a fazer… como sei qual a correcta?”

– Mikoshi, o que te move? Estabelece de forma equilibrada as tuas prioridades. Trabalha em ti.
Em equilíbrio, sentirás sempre o caminho. Já viste alguém a semear arroz e a colher batatas?

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CAP. XII 

Lembra-te Mikoshi, a verdadeira harmonia provém de te manteres equilibrado no desequilíbrio que te rodeia.
Que tens feito para te equilibrares?”

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CAP. XIII 

“Avô…como lido com a agressividade e opinião de quem me rodeia?”

– Mikoshi, quando começas a ter respeito por ti próprio, o que os outros pensam sobre a tua pessoa deixa de te interessar. Saberás instintivamente quando disferir o golpe com a espada ou quando virar as costas à sombra.”

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CAP. XIV 

“Avô como lidar com quem não é correcto comigo? Com quem fala mal de mim de forma propositada e envenenada?”

– Mikoshi…o que para ti é incorrecto, para outra pessoa é correcto. O que para ti é a razão, para outra pessoa é a aberração. Aprende a lidar e a encaixar a diferença…ou tens a presunção que todos concordem contigo e gostem de ti? Palavras leva-as o vento, o coração fica sempre. Cuida do teu. É essa a tua grande missão.

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CAP. XV 

“Avô… o que é mais importante para ti?

– As pessoas, Mikoshi!

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CAP. XVI 

Mikoshi, como teu avô relembro algo essencial, vital, único: cuida do teu corpo com consciência; ele é o templo da alma. De pouco vale muita meditação e esoterismo multidimensional se a estrutura, a base sagrada da tua pirâmide se encontra em areias movediças.

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CAP. XVII 

“Avô Shibu… sinto-me perdido, sem rumo. Por mais que tente parece que nada dá resultado. Sinto-me a esmorecer, a ficar com raiva e com a desilusão à flor da Alma…como contornar isto?”

– Mikoshi, não há forma de contornar a vida, de criar atalhos ilusórios. Deverás quebrar e caminhar em frente.
Muda de vida, antes que a vida te mude a ti.

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CAP. XVIII 

“Avô…qual o propósito da minha vida?”

– VIVER Mikoshi, em vez de sobreviver.

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CAP. XIX 

Mikoshi…dizes que “não tens tempo”…
Um dia o tempo não vai ter tempo para ti.

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CAP. XX 

“Avô…como encontrar alguém que me ame, fique ao meu lado, compreenda, seja fiel e faça feliz?”

Mikoshi, talvez quando te encontrares a ti e deixares de necessitar tanto dessa pessoa, ela surja.
O esquilo sobe a árvore e não questiona se ela vai aparecer, desaparecer ou mirrar.
Quando deixares fluir a tua vida e agires como o esquilo, em vez de ruminar e duvidar, a tua árvore surgirá…com ramos fortes e folhas frescas.

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CAP. XXI 

“Avô…tenho pensado e nesta época nunca consigo encontrar os presentes ideais para quem me é querido.
É frustrante…”

– Mikoshi…para quem te é querido? E tu? Sentes-te querido perante ti? Porque escolhes apenas a tua família de sangue para apelidares de “querido”? Quando vais sentir e integrar que somos todos UM? Presentes? Dá-te…todo o ano. Isso sim, é um verdadeiro presente que dás a ti e à humanidade que tanto teimas em individualizar, fomentando a indiferença.

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CAP. XXII 

“Avô, qual o sentido da vida?”

– Isso é algo que descobres dia após dia. O sentido não se procura, constrói-se. O caminho não se desdobra à tua frente, deves apenas caminhar. É na ATENÇÃO e INTENÇÃO, todos os dias, que vais formando e criando o teu sentido, o teu caminho. Só assim saberás quem és e sentirás a via da tua missão, neto Mikoshi. Tais virtudes não se encontram em nenhum cálice especial ou em algum livro ou pessoa que de repente te dá uma resposta. A tua vida só tu a podes viver, desfrutar e descobrir através das tuas opções diárias.

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CAP. XXIII 

Mikoshi, mantém sempre presente no espírito que o carácter molda a existência. Ao dares real atenção e respeito aos que pouco te podem dar algo em troca ($$?) estás na prática, que é o que realmente interessa, a demonstrar que valores regem a tua vida.
Sem verdadeiros valores, perdes a tua essência. De que vale conquistares o mundo, se te perdes a ti?

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CAP. XXIV 

“Avô o que são as coincidências?”

– As coincidências Mikoshi, são a forma que o Grande Espírito encontrou de passar anónimo.
Chamam-se “sincronias”.

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CAP. XXV 

“Avô…o que é mais importante para ti?”

– As pessoas, Mikoshi.

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CAP. XXVI 

“Avô porque continuo a ‘não ter tempo’?”

– Meu querido neto…o tempo está lá. Provavelmente tu é que não.

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CAP. XXVII

“Avô, porque quase nunca consigo os resultados que pretendo???”

– Mikoshi…por acaso já viste alguém plantar cenoura e colher ananás?

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CAP. XXVIII

“Avô o que é o ‘Caminho’ ?”

– São todos os dias da tua vida Mikoshi.
Se te sintonizares com ela, corres um “sério risco”…..o de ser FELIZ.

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CAP. XXIX

“Avô, porque é que as pessoas são tão “interesseiras?”

Porque não têm GENUINO interesse em si próprias, Mikoshi.

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CAP. XXX

“Há algo que sintas que as pessoas temam ou ‘fujam de’, avô?”

Obviamente Mikoshi. Temem o silêncio.
É na constante ausência do verdadeiro silêncio que acontece a fuga permanente, negando o ser humano a si próprio, o conhecimento de quem é, onde está e para onde vai.

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CAP. XXXI

“Avô, porque é que as pessoas se vendem ao dinheiro?”

Porque pensam que a vida pode ser comprada, Mikoshi…

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CAP. XXXII

“Avô, porque existe o ego tal como o conhecemos, de forma tão caprichosa?”

Mikoshi, porque há pessoas se recusam, consciente ou inconscientemente, a lidar com as suas fragilidades e feridas.

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CAP. XXXIII

“Avô… porque vejo pessoas a tratarem bem os “de fora” aplicando, por outro lado, desdém e indiferença para com os da própria família?”

Mikoshi, quem não se trata bem a si próprio, tem baixa auto estima e amor próprio… logo, é isso que faz. Necessita de sacos de boxe “internos” para descarregar a frustração, e da aprovação “exterior” de terceiros para um elevar vazio e falso do ego.

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CAP. XXXIV

Mikoshi, já pensaste no teu maior desejo para 2016?

“Não sei bem avô. É sempre a mesma história todos os anos…paz, saúde, abundância…”

E se o teu desejo fosse, com profunda intenção, VIVER?

“Mas isso já faço Avô…toda a gente faz!”

Achas? Não basta olhar…é preciso ver. Vê bem, repara nas pessoas à tua volta. Repara em ti e nas tuas prioridades, na intenção que está na base das decisões que tomas diariamente. No que te move. Chamas a isso VIVER? Talvez o teu conceito de VIDA esteja caduco.

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CAP. XXXV

“Avô, como fazer quando tudo se torna confuso, complicado e não sei para onde ir?”

Volta ao principio Mikoshi. Recomeça a fazer simples, menos e mais focado, com olhos de criança que vê em cada obstáculo um desafio, ao invés de um fardo. Não compliques.
Se te encontrares desvitalizado a todos os níveis, pára. Começa a viver de novo, redefine-te e ganha estrutura, descobre processos. Muda tudo.
A menos que sejas masoquista, é assim.

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CAP. XXXVI

Mikoshi, de que tens mais saudades?

“De ser criança e de viver o momento como se não existisse amanhã, longe das psicoses e vida esquizofrénica que tantas vezes levamos, numa tentativa inconsciente de quase aniquilação e auto-sabotagem, avô.”

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CAP. XXXVII

“Avô, porque é que as pessoas fazem mal umas às outras, de várias formas?”

Porque têm a inconsciência de pensar que ainda ganham alguma coisa com isso, Mikoshi…

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CAP. XXXVIII

“Avô, o que fazer para ser “ZEN”?”

Não entres em modas Mikoshi. Apenas SÊ. Só quer ser “Zen” quem não se consegue ser a si.

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CAP. XXXIX

“Avô, porque me sinto sempre infeliz e insatisfeito?”

Porque optaste e te habituaste a isso.

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CAP. XL

“Avô, porquê a espada?”

Mikoshi, consegues cortar um tronco com palavras?

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CAP. XLI

“Avô, a morte física…porque as pessoas a temem tanto?”

Mikoshi, quando não se sabe viver, é difícil saber “morrer”.

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CAP. XLII

Avô, porque é que as pessoas têm tanta necessidade dos “jogos de sorte”?

Porque não sabem jogar o jogo da VIDA, Mikoshi.

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CAP. XLIII

Avô, o que é o tempo?”

Mikoshi, o tempo é a chama que consome a vela que és. Não sejas a vela, torna-te na chama.

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CAP. XLIV

“Avô, como posso ascender a estados superiores de consciência?”

 Mikoshi, VIVE. As pessoas andam tão ocupadas em “evoluir” e serem “especiais” que se esquecem de viver…

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CAP. XLV

Avô, porque é que as pessoas ou são arrogantes e cheias delas próprias, ou são tótós e reféns da sua baixa auto estima?”

Hum…essa é pertinente Mikoshi. As pessoas não compreendem que há um “caminho do meio”, em que a afirmação/realização não tem de se cruzar com a agressividade e presunção e onde a simplicidade não tem de resvalar em “síndrome de calimero” /ausência de amor próprio. Só os fracos de espírito necessitam de cultivar a arrogância, petulância e o medo.
Só os frágeis de coração e com alma ferida, se entregam à auto comiseração e vitimização, não assumindo a VIDA e os desafios de mudança que ela transporta.

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CAP. XLVI

“Avô, porque é que a maior parte das pessoas vive em função do dinheiro e o coloca em 1º lugar, em detrimento de tantas outras prioridades importantes?”

Esse é um clássico ao longo das eras, Mikoshi. As pessoas não percebem que o que realmente pretendem é o que o dinheiro lhes pode oferecer, não o dinheiro em si. Ao invés da energia monetária ser consequência do ser humano fazer o que realmente o completa e preenche, para assim cumprir a sua missão maior, vende-se a falsos deuses de papel e metal que fazem perder o discernimento, a consciência, as verdadeiras prioridades e o juízo. A cegueira desta pirâmide invertida é só igualável pela estupidez humana que a completa.

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CAP. XLVII

“Avô, porque é que as pessoas dizem que a vida é difícil?”

Mikoshi, existem 3 possibilidades: pessoas que não percebem que estão cá para aprender e julgam saber tudo (são as pseudo donas da verdade) e outras que não se julgam dignas de passar o seu real e efectivo conhecimento ao próximo e assim se subestimam e inferiorizam. A meio caminho fica a junção das 2 anteriores, em que a arrogância e falta de amor próprio/auto estima se misturam num perfeito cocktail venenoso. 
A vida é um desafio constante. Tendo essa consciência, manteremos a cabeça bem erguida.

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